Sleigh Bells

Os meus ossos reluziam com um brilho nacarado ao sol abrasador. Não sabia se era esse o brilho natural dos ossos, visto que nunca nenhum me tinha cruzado o caminho, pelo menos assim, desprotegidos, muito menos os meus, espalhados em pequenos montinhos aqui e acolá, já desprovidos de carne, grandes perólas alongadas perdidas na areia.
E admirava-lhes o brilho, na tarde quente, no meio do deserto. Aliás eu não, os meus globos oculares, única parte mole que sobrara de todo o meu corpo, perdidos no vazio das órbitas, sem musculos ou gordura para os guardar, coitados. E pareciam entidades próprias, visto que nada mais de mim restava senão eles, e aqui continuava, pensando, e o esquerdo sentia até um ligeiro desconforto de estar parcialmente alojado numa fissura no chão, por assim dizer, da minha órbita, o que lhe dificultava a visualização do que os rodeava e lhe deformava a perfeita forma redondinha que tanto apreciava em si, que o meu lado esquerdo sempre fora vaidoso.
Tentava agora recordar-me de como perdera a carne ou a vida, que já não me lembrava de qual se tinha sumido primeiro, ou se tinham fugido ao mesmo tempo, deixando como vestigio uma centena de ossinhos com brilho peculiar espalhados por uns míseros metros quadrados e um par de olhos que ainda não conseguia perceber como tinham sobrevivido.
Foi então que me surgiu a memória: tinha sido devorada pelas bestas. Que ultraje! Morte tão indigna! Como teria gritado de fúria se ainda tivesse lábios!
(…)

Published in: on Agosto 14, 2010 at 2:35 am  Deixe um Comentário  
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