Para onde vais, amor meu?
Para onde vais que não te vejo, não te tenho, não te aperto nos braços.
Para onde vais, anaïs? Onde estás? Que o vento traz-me o teu odor mas não o sabor da tua carne
a frescura do teu beijo, o teu olhar de fêmea rebelde que quero dominar.
Em que café manhoso te escondes com o teu hálito a café e a tabaco, as tuas cigarrilhas longas ou o teu verniz a descamar, cobra largando a pele? Mais uma, das muitas te que encerram.
Quero-te nos meus braços, vénus, gemendo de dor, anaïs, de dor, dar-te mais uma cicatriz como a que ostentas na perna esquerda, cujo segredo só tu encerras e eu beijo apaixonado, os meus lábios nos lábios da tua ferida que queria perfurar, abrir de novo, para que a dor do corpo que apague a que carregas sempre no peito e deixes de fugir, de me fugir.
Com quem dormes, anaïs? Em que peito te escondes? Com quem és livre agora, acorrentando-te aos poucos sem saber? Quem segura a adaga que és para me cortar aos pedacinhos, centímetro por centímetro de pele?
Segreda ao vento o que vês, descreve-me a rua, café, quarto de hotel, beco onde agora amas, que ele me traga as tuas palavras com o teu odor.
Sussurra-lhe o que te agita, sabina, diz-me o que pensas, deixa-me entrar na tua cabeça, encontrar-te lá dentro, tirar-te de lá.
Grita-lhe, anaïs.
Grita.
Para onde te levou a brisa?
[Where do you go to, my lovely?]