Villa Balzac

Honoré de Balzac Escuro tem um nome com uma história demasiado longa para aqui ser contada e dois anos e meio, quase todos passados enroscado na minha cama, desde o dia em que um bom amigo mo trouxe, minúsculo e assustado, e nos apaixonámos à primeira vista, a besta e a fera, por assim dizer, tufo de pêlo mais adorável que alguma gata um dia deu ao mundo que me ronronava no regaço.
A nossa relação desde então, como todas as que tive, é cheia de altos e baixos, portando-se ele como a menina caprichosa: mal chego a casa, ei-lo corre para o meu colo em busca de atenção e, após ronronar assustadoramente alto, facilmente me troca, seja por um insecto que se move, uma caneta que rola ou uma camisola com o cheiro de outra, que numa casa de mulheres habito, deixando-me sozinha e com o orgulho ferido, olhando-o com um misto de curiosidade e raiva de marido abandonado enquanto ele, indiferente, se movimenta suavemente, deslizando pelos espaços, dandy que é.
Depois, quando a curiosidade está saciada, ou o insecto morto, retorna, com olhos mansos e carentes, todo ele dengoso, roçando-se nas minhas pernas, insinuando-se, pedindo perdão pelo abandono, esposa infiel que retorna ao lar, esperando que nessa noite o deixe dormir no quarto, aninhado aos meus pés ou ronronando-me na cara, na qual do dia seguinte nascerá um novo arranhão fruto da sua felicidade.
E assim passamos os nossos dias de casamento, eu idolatrando-o e afagando-lhe o dorso peludo a toda a hora, sussurando-lhe amor enquanto roço a minha cara no seu focinho, ao que ele responde procurando-me e repudiando-me conforme a sua vontade, mulherzinha instável reencarnada gato.
Depois o fim-de-semana finda-se e eu tenho e deixar a casa paterna.
Como em todas as relações do tipo, apesar eu claramente amá-lo mais, é ele quem mais sofre com a distância, dependente do meu afecto que está, murchando nas montanhas do norte enquanto aguarda ansioso o próximo fim-de-semana.
E a verdade é que, com tantas partidas e chegadas, a nossa relação estabilizou.
Published in: on Agosto 20, 2010 at 1:23 am  Deixe um Comentário  
Tags:

Chanson Française


Para onde vais, amor meu?
Para onde vais que não te vejo, não te tenho, não te aperto nos braços.
Para onde vais, anaïs? Onde estás? Que o vento traz-me o teu odor mas não o sabor da tua carne
a frescura do teu beijo, o teu olhar de fêmea rebelde que quero dominar.
Em que café manhoso te escondes com o teu hálito a café e a tabaco, as tuas cigarrilhas longas ou o teu verniz a descamar, cobra largando a pele? Mais uma, das muitas te que encerram.
Quero-te nos meus braços, vénus, gemendo de dor, anaïs, de dor, dar-te mais uma cicatriz como a que ostentas na perna esquerda, cujo segredo só tu encerras e eu beijo apaixonado, os meus lábios nos lábios da tua ferida que queria perfurar, abrir de novo, para que a dor do corpo que apague a que carregas sempre no peito e deixes de fugir, de me fugir.
Com quem dormes, anaïs? Em que peito te escondes? Com quem és livre agora, acorrentando-te aos poucos sem saber? Quem segura a adaga que és para me cortar aos pedacinhos, centímetro por centímetro de pele?
Segreda ao vento o que vês, descreve-me a rua, café, quarto de hotel, beco onde agora amas, que ele me traga as tuas palavras com o teu odor.
Sussurra-lhe o que te agita, sabina, diz-me o que pensas, deixa-me entrar na tua cabeça, encontrar-te lá dentro, tirar-te de lá.
Grita-lhe, anaïs.
Grita.
Para onde te levou a brisa?
[Where do you go to, my lovely?]
Published in: on Agosto 18, 2010 at 8:16 pm  Deixe um Comentário  
Tags:

Short Short Story

A galinha negra aninha-se no peito do homem mutilado, como um gato aninhando-se no colo do dono, camuflando-se no seu corpo, protegendo-se do frio da madrugada, início do amanhecer. Depois, como se um chamamento divino a despertasse do sono que não chegou a ocorrer, levanta-se e gira lentamente sobre ela mesma, planeta que é, que não lhe é permitido girar em volta do sol que agora se ergue, levantando e baixando as patas amarelas e afiadas,valsa das galinhas que o homem nunca chegará a compreender de tão secreta que a fazem. Após a terceira volta estar completa, bailarina digna de uma valsa vienense, pára, baixando o pescoço fino e protegido pelas penas sujas e contempla momentaneamente a grade costal saliente em que assentam os seus pés, critério último da análise da qualidade do solo.
Começa então a raspar a carne com as patas afiadas, como se de terra se tratasse.
Inicialmente faz apenas arranhões pouco profundos, com pequenos rios de sangue circundando as feridas infectadas. Depois, à terceira e quarta passagem, pedaços de músculo e gordura ora voam ora se acumulam nos bordos da ferida, misturadas com sangue líquido e seco, muro protector da obra da galinha. A nossa protagonista continua o trabalho, tão violentamente que o cadáver treme ligeiramente com a sua força, balança na sua força quase cilíndrica de saco humano sem vida.
Mais tarde, já o sol se apresenta rei magnânimo na força do meio-dia, e um rak-rak, da pata contra o osso nos fere os ouvidos e o nosso corpo treme do barulho que só julgamos ser possível em filmes de terror, o som da destruição do nosso suporte. Fosse humana esta coveira, ou tivesse pele, e já gotas correriam da crista para o bico, pingando deste para se misturar com o sangue e a gordura e a carne. Porém, se suor existe, a sua penugem negra trata de a encobrir, como maquilhagem a encobrir uma feia cicatriz ou uma mentira a esconder uma feia verdade. A seus pés, no meio dos elementos corporais misturados, é já visível a medula vermelha, que volta por volta, vai debicando, mais para matar a sede com o sangue do que propriamente pela fome.
Continua cavando o corpo durante a tarde que se inicia, deixando a lâmina de osso cada vez mais fica, o muro de detritos à sua volta cada vez mais alto, mais colorido pelo branco sujo dos ossos que se junta aos vários tons de vermelho da carne e ao amarelo da gordura.
Já deixou o esterno para trás, arranca agora, com precisão de médico, o pericárdio. Continuaria, durante horas se necessário, mas as suas patas sentem o tecido macio do coração humano e pára.
Dá então forma, com o bico, ao revestimento de detritos, com calma, demoradamente, com um cuidado que muito bem poderíamos chamar de maternal.
Terminou o trabalho, aninha-se agora nela mesma e no lar que construiu, pensando nos ovos que em breve parirá num lugar abrigado, o corpo de um homem sem perna ou cara, no meio de um mundo caótico, do qual tentará proteger as criaturinhas barulhentas e húmidas que um dia, não muito distante deste, deles emergirão. Mas, por enquanto, por mais uma dúzia de horas, só ela e o peito do homem.
E o sol abandona-nos, por fim, a nós, à coveira prenha e ao cadáver sem rosto, pôr-do-sol que em êxtase se presencia no campo minado.
Published in: on Agosto 14, 2010 at 3:52 pm  Deixe um Comentário  

Sleigh Bells

Os meus ossos reluziam com um brilho nacarado ao sol abrasador. Não sabia se era esse o brilho natural dos ossos, visto que nunca nenhum me tinha cruzado o caminho, pelo menos assim, desprotegidos, muito menos os meus, espalhados em pequenos montinhos aqui e acolá, já desprovidos de carne, grandes perólas alongadas perdidas na areia.
E admirava-lhes o brilho, na tarde quente, no meio do deserto. Aliás eu não, os meus globos oculares, única parte mole que sobrara de todo o meu corpo, perdidos no vazio das órbitas, sem musculos ou gordura para os guardar, coitados. E pareciam entidades próprias, visto que nada mais de mim restava senão eles, e aqui continuava, pensando, e o esquerdo sentia até um ligeiro desconforto de estar parcialmente alojado numa fissura no chão, por assim dizer, da minha órbita, o que lhe dificultava a visualização do que os rodeava e lhe deformava a perfeita forma redondinha que tanto apreciava em si, que o meu lado esquerdo sempre fora vaidoso.
Tentava agora recordar-me de como perdera a carne ou a vida, que já não me lembrava de qual se tinha sumido primeiro, ou se tinham fugido ao mesmo tempo, deixando como vestigio uma centena de ossinhos com brilho peculiar espalhados por uns míseros metros quadrados e um par de olhos que ainda não conseguia perceber como tinham sobrevivido.
Foi então que me surgiu a memória: tinha sido devorada pelas bestas. Que ultraje! Morte tão indigna! Como teria gritado de fúria se ainda tivesse lábios!
(…)

Published in: on Agosto 14, 2010 at 2:35 am  Deixe um Comentário  
Tags:

A Spy in the House of Love

Sou uma espiã na casa
do amor,
intrusa na casa estranha,
delatora de apaixonados,
em saltos altos
e batom escarlate,
fazendo relatórios
do desconhecido
do que não conheço ou sinto.
espiã na casa do amor,
onde o que se sente
é inventado, fingido.

Espiã na casa do sonho
de vidro,
Apanhando sobras
de um ou outro coração
partido,
Sombra na casa alheia,
dissertando sobre o
desconhecido.

Um mansim
do acto de entrega,
escrevendo sobre os que se
dão quando
nunca me dei
mas, meus senhores,
peço perdão,
que mesmo esta casa me
sendo estranha
pelo brilho dos meus olhos
escarlates,
não me digam que nunca amei.
Published in: on Agosto 13, 2010 at 12:24 am  Deixe um Comentário  

The Scarlet Empress

A rainha Escarlate limpa o vestido
da lama do caminho
da água da chuva
do sangue do homem.
A rainha escarlate limpa a lágrima que lhe corre na face, do lado esquerdo, sempre do lado esquerdo.
A lágrima que sempre lhe cai depois de mais uma matança.
Não que sinta pena da vítima, escolhida pela fome, ou que o remorso lhe atormente a alma. A sua lágrima, na melhor das explicações, será o clímax que a atinge quando sente os batimentos pararem, a respiração cessar, a alma fugindo dos olhos.
Que é aí que a rainha escarlate crê estar a alma dos homens, e por isso os fixa, no momento final, esperando a partida das almas. Que é disso que tem fome, não de sangue ou de morte, mas de vida.
A alma fugiu-lhe há muito, nos olhos de um forasteiro levados, quando os olhos do desconhecido e os seus se cruzaram e o seu coração bateu tão forte e tão rápido que parou do cansaço, saindo-lhe a alma do corpo morto para se refugiar nos olhos do forasteiro.
Por isto a rainha escarlate mata, alimentando-se da alma dos mortos para que o coração não lhe pare outra vez, enquanto persiste na sua procura pelo barco de caronte que afinal não passa de um par de globos oculares. E muitas são as almas necessárias para aliviar a sua fome! Por isso o seu vestido, outrora em tom pastel, ganha agora um tom vermelho vivo, a sua pele é branca em demasia de tantos banhos de lua, os seus olhos negros e vazios, olhos de quem já viu a morte de frente mais do que os seus dedos finos e brancos podem contar.
Published in: on Agosto 12, 2010 at 4:47 pm  Deixe um Comentário  

Personne

É manhã, tão cedo que apenas os mais ternos raios me acariciam o braço, novos amantes. É manhã, marco do novo dia, da nova personagem que vou interpretar.
Criança, senhora, mulher de muitos ou de ninguém, hipster, hippie, todas encarnadas com fingimento sincero.
Ofélia ou Anaïs? Eis, meus amigos, a questão.
E os meus dedos percorrem os vestidos no armário onde o Eu se refugiou do caos um dia.
Já escolhi.
Não é Ele, ainda não é Ele, nunca é Ele.
A porta bate, no seu toc abafado, atrás da personagem que acredito ser,
que alguém finge esperar, algures.
Só espero não me fragmentar no caminho.
Published in: on Agosto 12, 2010 at 4:35 pm  Deixe um Comentário  
Tags:

Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Deixa-me apagar-te,
limpar-te do rosto
como o lápis
caído em
desuso
Esfregar bem a pele
para que caias
como células
mortas.
Renascer amanhã
e depois
sem vestígios de ti no suor
dos sonhos.
Sem seguir os teus passos no pó
dos caminhos.
Renascer a cada dia com o peito
pequeno
de não mais te lá guardar.
Ficando assim,
sem pesadelos,
caminho ou peso
no peito,
Livre!,
como a vida se anseia.


Quando só queria que me salvasses...
Published in: on Agosto 11, 2010 at 7:02 pm  Deixe um Comentário  
Tags:
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.